domingo, 21 de janeiro de 2007

O linear se desmancha no ar.

Eu acredito em coisas lentas. Persisto por lugares calmos, a procura de algo pouco perene, afável, ácido, e ao mesmo tempo doce e áspero. O efêmero descarto logo de cara, apesar de às vezes me sentir bem com um porre rápido e desconcertante. Todo mundo desce ao inferno para tirar sarro do demônio, quem não arriscou-se? Duvido na linearidade, vejo o sobe e desce das montanhas, o mundo nunca foi linear. Todos somos compostos de curvas, altos e baixos. Ascensão e queda são palavras complexas mas tão fáceis de serem vividas. Dá até uma certa repulsa pensar que exista alguém que viva o tempo todo a linearidade. Não que ela seja ruim ou soberba, mas me incomoda o fato de alguém nunca perder o equilíbrio, ou nunca correr riscos. Não que à não-linearidade se remeta ao inconseqüente ou ao impulso rápido dos sentidos, mas a vontade de experimentar o novo. Experimentar tambáem nao significa trocar o certo pelo duvidoso ou ser rápido e fustigante ao ponto de não perceber o que se está experimentando. Significa sentir, olhar, ir pertinho, sentir o cheiro, provar o gosto - leve, sem pressa - mostrar que o gosto não se limita à coisas conhecidas e facilmente perceptíveis. Há algo, nota-se algo, tem alguma coisa estranha com o vento batendo na copa das árvores, no clarear dos dias, na chuva da noite, nos arrepios dos pelos do braço. Ainda assim, tudo continua calmo como as paisagens coloridas do Kurosawa. Uma calmaria de movimentos e falas com o sentimento intenso da dança flamenca. Viver o novo desperta para o surpreendente, o ver para crer. A mistura da calma com a intensidade gera um sabor genuíno, o gosto da descoberta. A surpresa e o sorriso no final do dia ao deitar a cabeça no travesseiro.

Nenhum comentário: